domingo, 22 de janeiro de 2012

O Brado dos Pedantes


Na série "Brado Retumbante" que passa na Rede Globo de Televisão, a primeira-dama de um presidente honesto e íntegro (presidente que, diga-se de passagem, foi comparado pela imprensa com o talvez futuro candidato a presidenciável Aécio Neves pelas características físicas) resolve "melhorar a educação do país". Por meio da verossemelhança, alguns temas da atualidade estão inseridos na série, para convencer e confundir os incautos que assistem à produção. Muitos devem pensar: de um presidente e uma primeira-dama como estes não tem como discordar, são honestos, íntegros, coisas "nunca vistas antes na história deste país".

Pois é, infelizmente ainda hoje existe muito pouco motivo para comemorar quando o assunto é radiodifusão. Apesar de, em algumas entrevistas para promover seu livro, Boni dizer que a empresa aprendeu a respeitar o povo brasileiro, já que episódios como a clássica edição do debate eleitoral de Collor e Lula não se repetiriam, é lamentável ver o que continua acontecendo nesta que é uma das maiores televisões do mundo. Na dita série, que passou durante essa semana às noites na grade de programação, um crime foi cometido: o da desinformação.

No episódio a que me refiro, onde a primeira-dama envolve-se em um escândalo com o ministério da educação, as questões giraram em torno de assuntos fictícios mas que tem muita relação com o que está acontecendo: o conteúdo dos livros didáticos (onde se falou de certa forma sobre a prática de sociologia e filosofia nas escolas e até daquele episódio onde a imprensa toda se posicionou contra um suposto livro didático que estaria ensinando os alunos a falar errado - algo que apenas mostrou como a prática do jornalismo nos moldes modernos está fadada ao erro, já que o conteúdo do livro foi distorcido e muita babaquice foi dita). Evidente que isso foi extrapolado pela produtora que realizou a história do "Brado Retumbante", de modo que todos que a assistem tornam-se a favor do argumento de que isso vem a "catequisar para a esquerda" nossas crianças.

Neste episódio, os "bonzinhos" da história estão claramente de um lado, o dos justos! Do outro lado, quem está? As "minorias organizadas", os movimentos sociais, os sindicatos, e até mesmo as ongs. A série simplesmente tirou a legitimidade de TODOS esses que são elementos necessários em uma democracia verdadeira e que na maioria dos casos contribui para a consolidação de direitos e que promove o avanço da sociedade por meio do equilibrio dos interesses coletivos. Quem assistiu à série, viu uma sindicalista que tinha uma mansão e que fazia mutreta escrevendo livros que mencionavam o mst, e criticavam a ânsia exploradora dos colonizadores. Quem assistiu à série ouviu a primeira-dama arrasando com as ongs, dizendo que elas são não-governamentais mas só funcionam com o dinheiro do governo.

É ridículo e frustrante ver o quanto essa opinião grosseira foi repetida e reforçada em vários aspectos e apenas mostrou de que lado ficam os bons e os ruins na opinião de quem escreveu aquela história. É muito baixo o nível de uma empresa que ganha uma concessão pública de algo tão importante em uma democracia e utiliza o espaço para benefício próprio. Quem "deseduca" o país neste caso, é esse veículo de informação que claramente posicionou-se com essa série, e mostrou que pluralidade de vozes na sociedade não é interesse em seus roteiros.

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